C R E V A S S E


Rei do esconderijo,

A ti entrego tributo:

Mil pedras d’ouro e um sorriso,

Mata a doença da qual fujo.

 

Doença tal: a tristeza,

E escuse-me a safadeza,

Mas não tenho andado bem.

Já nem ando pelos pés,

Já nem levanto a cabeça.

 

O pão já não convém,

O vinho traz-me as lágrimas,

Vim carregado até ao palácio,

Pedir por marés vazas.

 

Fico, pobre e paralisado,

Que o livro deste arado,

Nem chegou à introdução.

Fico por este lado,

Que as cordas do meu fado,

Nem chegaram a canção.

 

Rimo sem riquezas,

Tirando o ouro que ofereço,

Decorando-o com um laço,

Observe tamanha beleza,

Carreguei-a com um só braço.

 

Bracei as cheias para chegar,

Até desafiei os guardas,

Levei coiçes e patadas,

Até me ouvir gritar.

 

Mas aqui estou, despido,

Um produto deste destino,

Derrotado e fracassado,

Crónica viva do passado.

Peço agora o lugar de bardo,

Que o meu infortúnio o entretenha,

Que se ria do meu engodo,

Se deleite no meu choro,

Dançe enquanto ardo,

Ardo de raiva em sonho,

Afogo-me neste lodo,

Que o destino me pôs aos pés.

 

Esmurro, bato,

Até atiro o sapato,

Pontapeio, esmago,

Dou o corpo ao embargo.

 

Fujo, corro,

Dou uma sarda de estorro,

Levo pedras de mágoas,

Bebo arsénio destas águas,

Sou comido por piranhas,

Picado por mil abelhas.

 

Faz de mim Prometeu,

Condena-me a sofrer,

Faz de mim o que quiseres,

Prefiro a fúria nefasta,

Se à morte me entregares.

 

Esgana-me, sufoca-me,

Mas não me negues a morte,

A minha coragem ficou em arame,

Esta tristeza que me é tão forte,

Uma razia de enxame que me pica a alma,

Ferrões talhados de negro esmalte,

Fendas de onde jorra sangue,

Morrer em ferida seria uma sorte.

 

Põe a minha cabeça em lança,

Para que todos possam ver,

A marca das minhas lágrimas:

A emoção da matança;

Para que possam comer seu pão,

E beber seu vinho,

Na glória de me ver sofrer.

 

Larga o meu corpo no chão,

Para que seja comido por ratos,

Não procures o coração,

Esse ficou em cacos.

 

Queima todas as minhas posses,

No brilho azul do fogo,

Porque tudo o que é meu, queimando,

Deve também chorar o jogo.

 

Não funeres, nem suspires,

Nem envies cartas aos amigos,

Não celebres nem cantes,

Nem me organizes um esquema.

Esquece-me, e garante,

Que em nenhuma estante,

Ouvirão este poema.


JOHNNY SALVATORE

Hoje sou tudo no nada que sou, amanhã serei outro.

6 thoughts on “C R E V A S S E

  1. Não via esta palavra nem escrita nem dita a viva voz “Crevasse” faz tantos anos , recorda-me os meus tempos de escalada nos gelos da América do sul Chimborazo e Cotopaxi, Aconcágua e nos Himalaias e o medo que tinha de me deparar com alguma escondida por gelo recente(obrigado por me recordardes esses tempos já tão distantes)

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    • De facto, é uma palavra lindíssima e raramente usada. Um pouco como crispação, que se ouve menos e menos, mas que também gosto muito.
      Esta composição é que não é tão boa, mas ainda não tive tempo de a reescrever por completo…
      E obrigado eu por me leres, significa mesmo muito para mim.

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      • Pois nem imaginas a mudança pra melhor que fizeste em mim, na forma de pensar a escrita a ponto de me tentar e tentarei reinventar-me, mudar a forma de escrever ( pelo menos a ser mais cuidadoso e menos prolífero na produção de banais textos , poemas menos bons ( evoluí nestes últimos dias lendo-te , o meu muito obrigado)

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      • E tu nem imaginas o que isso significa para mim. Sou novo nisto, publiquei pela primeira vez há uns quantos meses e tenho vinte e dois anos. Ainda tenho muito p’la frente, e ainda bem, mas o que dizes é deveras importante para mim. Um grande obrigado, ainda não tive tempo de olhar bem o teu blogue, mas assim farei.

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