S E R


Ser algo é a maior das responsabilidades.

Ser, por si só, é uma lança que nos trespassa a espinha.

Sentir que somos ainda mais, isso, é dos sabores mais amargos que a vida nos coloca no prato. Porque ser é sê-lo sempre, é sê-lo todo e não é ser mais nada. Ser terá de o ser, não adianta sair na próxima curva, pois o que tem de ser tem muita força.

O que somos é-nos constantemente atirado em rajadas de mil soldados, embebidas em venenos morosos que nos destroem o espírito com tamanho encanto e precisão, que caímos sobre eles de livre vontade; perdi a conta às vezes em que disse “sou isto” ou “sou aquilo”, mas não sou, não sou nada, sou apenas outro fraco acorrentado a conceitos que em tanto superam a minha essência, e que em simultâneo, em tanto falham descrevê-la.

Se ser fosse uma flecha, a mesma não voaria, nem com a maior tensão da corda, pois ser é um objecto parado, ser não anda, não voa, não plana nem flutua.

Ser é sê-lo sempre, ser é não ser mais nada.

No entando, embora em plena paralisia, ser é tão volátil e difuso, e é em ser que se deposita toda a poesia, ser tem tantas palavras que nunca faltará nenhuma para o descrever.

O meu problema com ser é simples: porque ao ter um problema em ser, sou filósofo, e se aceitar só ser, sou artista. Pior, se não aceitar nem uma nem outra, e não ocupar pensamentos com as banalidades dos conceitos construídos, sou Homem. Nesta miríade de ser, tentar destruír o ser já alimenta ser algo, sendo o meu problema com ser tão grande como pequeno, está lá e não está, ou melhor, é e não é.

Ando então em marcha de pedra, arremessando-me aos ventos e cuspindo em tudo o que se dilata em ser, porque não serei nada, e essa certeza tenho-a no peito, não porque não queira ser mas porque a minha passagem já foi declarada, anúnciada em tantos cantos, líricas de ser-não-ser e até nos jardins e bancos. Cansei-me de ser tanto e não o suficiente, de ser demasiado, de não ser gente, cansei-me de ser!

E neste cansaço que me aconchega – que me diz que nada sou – encontro tão grande conforto, talvez seja o conforto de só ser, pois tão iluminada é a visão de não ser nada, como a ilusão de que chega só ser.

A conclusão que te deixo é então só uma, a de que não ser vale tanto como não vale nada, e que se é para seres algo, tenta que seja algo que não te desfaça a alma.


JOHNNY SALVATORE

Hoje sou tudo no nada que sou, amanhã serei outro.

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