Queda do Dia em Texto #1

Psíque mora num T2

As malhas dos nossos maiores desgostos encontram-se nos antigos e suaves cheiros de uma velha livraria. Cada livro, cada palavra, histórias infinitas de grandes batalhas, amores ancestrais, mistérios congelados em rios secos e desmembrados. Tudo isto, e as maravilhosas vitrines que compõem os nossos sonhos, seduzindo-nos com ideias construídas do que poderíamos ser, consumindo vampirescamente todos os segundos que passamos a ignorar aquilo que já somos, nestes minutos ferozes de fome animalesca, horas monstruosas e viscerais, anos esquecidos de formas tão claras, tão visíveis, nuas num feixe de luz que apenas conseguímos ver de longe, uma cruel visão copiada e colada num bonito postal, que não valerá nada, onde não escreverão nada, apenas guardarão na gaveta do móvel de entrada debaixo do copo das chaves, como medida emergêncial caso algum dia um sobrinho qualquer termine a faculdade. De tantos ciclos perdidos de magia e tantos sentimentos intensamente sentidos, perdi o olhar molécular sobre o mundo que nos rodeia, sendo tudo cada vez mais distante, mais veloz e mais inadequado. Sinto-me tão crítico, existe uma beleza quase infinita nas normalidades e na rotina que sinto perder constantemente, procurando uma viajem de alturas e cambalhotas, a ardente fogosidade de uma tarde ao pôr-do-sol ou de uma noite colorida repleta de grandes espectros e batidas violentas que acaba numa garrafa de vinho no lusco-fusco, à beira-rio. É tão cruel o sentimento do passado, do valor embaciado que dou ao pretérito perfeito, ao que já foi, ao que ainda é, ao gosto amargo de comprimidos engolidos, às flores que me foram oferecidas a cinco de março de dois mil e doze, doces brancas rosas e alguns cosmos cor-de-laranja, paz e calor, mais ou menos como descreveria a nossa mente ao som de Jazz antigo dos quarentas, com arranjos bonitos e vozes caricátas, sons difusos e imagens monocrómaticas.

Sinto falta, especialmente, do espaço que me envolvia, o cansativo e pesado ar de grandes cidades, e um grande amor que nunca conheci, de quem nunca vi a face, mas que vagueava por entre as ruas, comprando cigarros há uma da manhã. Senti-me como se fosse Psiquê, condenado a nunca conhecer o meu verdadeiro amor, mas a habitar com ele, passar nas mesmas ruas, pisar as mesmas pedras, usar o seu perfume e ler os livros que ele mais gostava. Eu era como Psiquê, mas morava num T2 em Lisboa, e não num grande castelo de nuvens e mármore nas ilhas gregas mais obscuras e mais belas. E, em delicadas linhas de pedra fria que percorrem grandes estátuas e antigas figuras, encontrava em forma de paixão uma pequena carta em cursivo:

“Bons tempos João,

Os teus olhos de amêndoa olham para cima

Esperam jactos de neon

Eu que por ti espero,

E desespero,

Porque sem ti o céu é sombrio

E de baixo toco guitarra devagarinho

Em crescendo e sem enredo

Volta para mim, doce antigo

Sê épico comigo.

O teu amor,

**********”

Que fatal, o toque de ultra-amor, ondas que se abatem sobre o românce cruel das grandes Artes, esse que atormenta homens e mulheres desde que o humano aprendeu a sentir. Será? Os nossos maiores feitos são os que mais nos magoam, e nenhum bom homem me dirá que o seu maior sucesso não foi conquistar o coração de com quem está. E menos me dirão que os seus piores tempos não foram de coração partido. Nesta floresta de sentimentos, sento-me num banco de jardim e observo o meu passado: que amei eu? Quem? Uma construção surreal do que quero amar, ou melhor, uma imagem de que consigo fazer tal proeza, ou conceber tal conceito sem o ter sentido ou vivido? E como sei que não vivi, se não o sei sentir? Quem me ensinará? Em ternas noites quentes, quem me beijára a testa, ao som de bossa nova, segurando firme vinho com tons florais e sabor acídico, quem dirá que me ama? Quem acordará ao meu lado? Ainda mais, diria, qual seria a importância de tal coisa, sendo a natureza do tempo tão volátil. Por vezes amamos e não sabemos que o fizemos, por vezes nunca amámos até o fazermos, embora julgarmos ter amado tantas outras vezes. Será que é único, exclusivo, uma explosão de uma vez só?

O único atríbuto do amor parece ser o de transcender a natureza arrasadora do Tempo e não porque exista estabilidade ou segurança, mas sim por existir tranquilidade e despreocupação, a verdadeira meditação signalamática, uma grande união de duas forças de luz que, em sinergia, determinam tudo, fazem nascer mundos em jardins, em praias, em montanhas. Se Deus existe, terá nascido de amor. Se a Terra foi feita à mão, terá sido feito com amor.

Tanta preocupação, e o meu amor passa nas mesmas ruas que eu, bebe a bica no Sr. Martins, e lê romances nas escadas da praça. Tanto tempo, e ainda não tive tempo de o conhecer. Por vezes sinto-me Psiquê, que mora num T2.


JOHNNY SALVATORE

Hoje sou tudo no nada que sou, amanhã serei outro.

2 thoughts on “Queda do Dia em Texto #1

    • Yeah, you would be having a hard time with this one, it uses a plethora of local expressions specific to Portugal, and even more specific to Lisbon, translators won’t pick them up.
      My prose is a bit weird, I wouldn’t recommend it, I’m better with poetry.

      Liked by 1 person

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