A R Q U I S O N O R O

Tens saudades gostosas

Um sol brilhante e bacalhau em sal

Memórias carinhosas,

Do Senhor João sentado no quintal.

 

Riachos e velhas de avental,

Lebres e santinhos no altar,

Silvas e raposas no sobral,

Longe, bem longe do mar.

 

Sapos e girinos em algas enroladas,

Musgo e orvalho nos folhais,

Levar das avós engelhadas,

Para comer os vegetais. 

 

Campos longos de triturar,

Largas suspiros de prazer,

A nobre luz de lembrar,

A justa paz só de ser.

 

Ser, nessa vitória distante,

De casas brancas e pão na mesa,

De caldeiradas e da dona Teresa,

Traços e flamas de antes.

 

Tens saudades morosas,

Dessa mora de viver,

Das lampas e mariposas,

Nunca ter e sempre haver.

 

Mentes limpas e carinhosas,

O Zé António e os seus berlindes,

Os miúdos sem chapéu ao calor,

Vozes estridentes e gritadas,

Em línguas afiadas de dor,

Sacadas de veneno de abelhas,

Dói , mas dói com tanto amor.

 

As figueiras à beira da estrada,

Alcatrão estalado em buracos,

A dona Beatriz e a sua empada,

E o seu marido a tirar macacos.

 

A jovem Ana e as suas tranças,

O café quente, sede fraca,

A tensão de tão poucas mudanças,

Fica Pedro, a tocar guitarra.


JOHNNY SALVATORE

Hoje sou tudo no nada que sou, amanhã serei outro.

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