R I C O S V Í C I O S

Em faces brancas,

Pensas tu,

Brancas de pó e luz,

Escamas, serpentes,

Sóis em grandes poentes,

Baixando brilhante cruz.

 

Em lugar algum,

Pensei eu,

Pensava seres metade meu,

Neste pranto tão comum.

 

E dou voz ao canto,

Desafinado e despedaçado,

Canto o romance desfeito,

Em rimas limpas e saudadas,

Em tom quase perfeito,

E sons metálicos de badaladas.

 

Sozinho me deito em quente,

Faces brancas, douradas,

Em filtros e cores falhadas,

De exposição da lente.

 

E nesta mítica praia,

Com Camões e Gil Vicente,

Toco a lira da partida,

Purifico a mente,

Levo a cabo a despedida,

Cabo que dobrei em poesia,

Essa, gélida e ferida,

Com rimas sujas e esquecidas,

Em tom de desajeito,

E sons que ninguém liga.

 

Elas, tão bonitas,

Ninfas de águas limpas,

Essências divinas,

Correm nuas na areia,

Belas e eruditas,

Pinturas da poesia.

 

Uma, solitária,

Já farta de dançar,

Canta sons de desespero,

Projectada para o barco,

Mirando um vasto mar.

 

Ninfa, vem,

Sê sozinha comigo,

Vem aquecer as faces brancas,

Vem dançar devarinho,

Que eu sou pintor e poeta,

Sussurarei pinturas ao teu ouvido,

Pintarei o teu corpo em verso.

Dísticas quadras, e tantas,

Um amor de longe incerto,

Amar, já não consigo,

Mas adorava ter-te perto. 

 

Doces faces brancas,

Ricos vícios dos antigos,

Mármores negros e polidos,

Iluminando as tuas nobres sancas,

As linhas curvas do teu cabelo,

A precisão das tuas tranças,

As flores atrás do teu ouvido,

A marca das tuas alças,

O teu brilhante sorriso,

Beleza sem quaisquer farsas.

 

E quando Lua se levanta,

Hei-de te beijar,

À faixa das ondas tocando,

Anúnciando o caminho,

Mantas gigantes de espuma,

Capturado na tua bruma,

Um toque tão mansinho.

 

Já não vejo faces brancas,

Mas sim corpos por vencer,

Já não há pó nem luz,

Nem escamas ou serpentes,

Mas sim imagens quentes,

Salpicadas de cores elementares,

Pintando o fado onde nos pus.

 

Cores essas, de rajada,

E eu, branco e frio,

Dando gritos de forte entrada,

Empurrando-me arriba rio.

Não sou digno de inspiração,

Não sou pintor nem poeta,

Não tenho uma ninfa na mão,

Já nem a Arte me afecta.

 

Tu que és metade teu,

E eu sem as minhas divinas,

Perdi-te numa visão,

Da metade que era minha.

Tu que já nem te lembras,

Dos cantos das ninfas dançarinas,

Das palavras, dos momentos,

Poemas que eram teus,

Pinturas que eram minhas.

 

E nesta praia me fico,

Admirando os antigos,

Pois a novidade foi embuscada,

E a poesia não me dá abrigo.

 

Poeta já não sou,

Tenho a pintura estagnada,

Não vejo côr neste mundo,

Já não vejo nada.


JOHNNY SALVATORE

One thought on “R I C O S V Í C I O S

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s