Sonetos #4 (poesia reciclada)


CARVÃO

Noutros ares, noutros olhares,

Fui uma bétula dobrada,

Venerando o vento, quebrada,

      sangrava folhas aos milhares.

 

Enraízei invejas às Oliveiras,

Que, dos Deuses adoradas,

Tinham mil líricas guardadas,

Encaroçadas em suas ponteiras.

 

E eu, bétula brejeira, sem flor,

ou aroma, nem erúdito pensador,

                  na sua sombra tombado…

 

Arderei vibrante, nos fogos de Verão,

Que se escreva com o meu carvão,

               Um poema digno do meu fado.


CABO 

Bravo, fiz-me às águas,

Dobrei o cabo mortal,

Fui ímpeto intemporal,

Naveguei entre mágoas.

 

Sangrado e acabado,

Espólito sem aval,

Dou-me ao vendaval

Que sopra, desolado!

 

Neste horizonte deserto,

Não estás remotamente perto

Do cabo que sofri a dobrar.

 

Adamastor foi mais esperto,

Que ao sentir o amor incerto,

     Não deixou ninguém passar.


MORTE

Sou o túmulo onde termino,

Iluminado por archotes,

Da solidão, oram sacerdotes,

Um rosário inocente e pristino.

 

Enterram-se em mim sonhos,

De ser, de chegar, de alcançar,

Desfolham rosas ao chorar,

Sobre os figurantes risonhos.

 

Sem lápide nem campanário,

Coveiro ou abertura por horário,

Despejo os lamentos do destino.

 

Sem oráculo ou obituário,

Epitáfio de mármore ou ossuário,

Morrem os meus sonhos desde menino.


JOHNNY SALVATORE

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