Queda do Dia em Texto #2

Apoteose

(Pantokrátor)

Um sorriso de escape consegue amolecer o mais duro dos mármores, a genuína beleza iluminada e inocente de dias perdidos a olhar para horas fugitivas. Tempos quase distintos de tanto baterem em paredes tão bonitas, em total paralisia espacial.

Lembro-me de me distraíres com mãos soltas e livros de antigos horrores mitológicos, na borda de uma piscina de luz pura que refletia sobre os teus doces olhos congelados debaixo de grossas lentes contra-sol, em forma circular, misteriosos olhos vidrados de vespa que magnificavam mistérios tão superficiais.

A nossa toalha partilhada de fraco linho, com adornos infantis e antiquados, de moda tínhamos pouco, e usámos pouca moda, pois estava tanto calor à beira daquela massa prateada de cor e desejo, um calor tanto climático como humano, daqueles que se transfere sem fios em soltos risos, baptizámos este calor comolove-wi-fi”, que de amor tinha tanto mas de aéreo tinha tão pouco. Recordo-me da bola insuflável que pairava lentamente em cima de água, sem qualquer dificuldade, uma leveza quase compáravel ao ar que respiramos nesse dia, que nos abraçava em espreguiçadeiras estaladas pelo Sol onde nos deitávamos em pleno comforto, apreciando antigas brisas que sobreviviam aos assaltos dos grandes pinheiros que nos rodeavam. Pinheiros, esses, que choravam pequenos fragmentos das suas folhagens, caindo levemente no meu molhado cabelo preto-corvo, dando óptimas excusas para me tocares em missão quase apoteótica para retirar aquela bela e pequena peça que a natureza produzia. E que peça era essa, e quão bonita dançava, admeio os curtos cantares de chamariz e pequenos sopros de ar que nos rodeavam em tom de inocência quase-eterna, beijando os nossos corpos desnudos como um par de jovens apaixonados, agraciando os raios de Sol com tão ternuroso cumprimento que lhes alimentava a intensidade, em pleno e directo impacto com as nossas peles já quentes de tanto toque, num choque tão térmico como cósmico…

E bonitos eram os dias

  E tão longos que eram.

As garrafas de cerveja reluziam um encantador radial côr de âmbar, com os pequenos traços das bolhas de gás projectados na nossas faces em plena penumbra, marcando novas constelações em movimento dístico. Lembro-me de aquecerem ao Sol, de serem intragáveis, lembro-me de sentir o terrível sabor de cerveja quente na tua boca quando te beijei, mas não me importava, gostava apenas de te beijar.

Quão grande foi o crime de amar numa escala tão local, com a precisão e audácia de um cirurgião, em tão pouco tempo. E serás tu, sempre, a apoteose do meu Verão.

Tu que cais descalço nas duras pedras de dias passados em países frios e continentes infelizes. Eu que de tanto me lembro, e tu que tanto te esqueces dos breves suspiros que partilhávamos com a destreza de antigos guerreiros gregos. Nós que nos envolvíamos em lutas épicas de resignação de quem gostava mais um do outro, de quem conhecia mais as Artes dos homens desconsiderando de uma maneira tão bela as tristes Artes de viver. Nós que bravámos mundos novos em quatro metros à beira de uma piscina, e inventámos tantas estrelas nas pequenas falhas dos raios de Sol, cortados por altas árvores. Nós que rejeitámos o Mundo e entregámos a nossa alma fundida a um Universo que é só nosso, onde a infinitude não nos chega. Nós que, aos quinze, tocávamos sinfonias com os lábios, escrevíamos grandes épicos nas costas um do outro, usando os dedos como canetas vivas e flexíveis, pintávamos quadros mentais que eram não menos que painéis, contando histórias de heróis cuja a única perdição foi ter amado.

Nós que nos perdemos em fracos fundos da vida humana, sedentos por algo que não nos pertence, enfraquecidos por um mundo que nos abate, aquele que rejeitámos, aquele que não é o que criámos. Aquele que está lá, na piscina, magnífica massa prateada com profundos laços de luz, afogado e abandonado pelos destinos da nossa compreensão, assassinado por tão fraca tensão.

Tu que te esqueces da beleza a Sul, escondida em longas planícies que não te encantam por serem tão estranhas.

Eu, que me lembro de tudo, mas já não sinto nada por tanto o ter mastigado em textos perdidos e contextos indignos.

Nós, que nos fundámos e destruímos na divindade de um Verão tão curtamente sentido, numa imortalidade quase triste de seres tão etéreos que só existem nas fantasias que líamos um ao outro, na beira daquela bonita piscina com cheiro químico, forrada de prata e amores que em tanto nos precedem.

E que felizes são as memórias.

Se mais nada, que não nos esqueçamos delas. 

Hoje sou tudo no nada que sou, amanhã serei outro.

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