Sonetos #5 (poesia reciclada)


OUTRORA

Todos os dias escrevo, d’alma repleta,

E lembro-me momentaneamente,

De que outrora já fui poeta

Que outrora já fui contente.

 

Percebo agora que sou das florestas,

Dos rios, das montanhas, sem textos.

Que não choro lágrimas, mas cascatas,

E para chorar não preciso de contexto.

 

Agora que tenho a alma penhorada,

Passo os dias no jardim, a destilar

O facto de não ser mesmo nada.

 

É importante não esquecer:

Homem sem nada a perder

Tem a escrita mais refinada.

 


GILBERTO

És uma efusão na minha tinta,

A ponta metálica da caneta,

És o meu espírito poeta,

Em toda a luz já extinta.

 

Vejo-te em bancos de jardim,

Escrevendo a maior obra,

Uma Ode que se desdobra

Nas asas brancas dum Serafim.

 

Tenho saudades tuas, tantas,

E nunca sequer te conheci,

Agora és só terra e plantas.

 

Guardo as tuas cartas bonitas,

Numa caixa de madeira e cetim

Digna das tuas poesias eruditas.

 


ALVARAZ

Tudo em mim é feito de pó,

E tudo em mim pó se reduz,

Que não me falte muita luz,

Para escrever como estou só.

 

Tenho falta de gostar d’alguém,

De não ser filho do destino,

Estou farto de ter um caminho

Que não se cruza com ninguém.

 

Aqui, já estou tão solitário,

Por vezes já nem me sinto,

Dou-me por homem extinto.

 

Agora, aguardo pela morte,

Que o pó do meu interior

Também a mim me sufoque.


JOHNNY SALVATORE

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