Água-Má

Sendo um enorme admirador de música instrumental, sangro nas palavras e poesias muita da mesma inspiração de cordas que vibra nas guitarras e nos violinos. Poesia é música, e vice-versa. Para mim, não há melhor poesia do que aquela que reluz no silêncio, ou melhor música que se entregue apenas às notas de que é feita.

O artista português Filho da Mãe tem sido — de longe — uma das maiores influências poéticas que tenho carregado nas costas, e como tal, dei-me à missão de desenhar uma composição poética para cada uma das suas faixas no seu último título, “Água-Má“.

Por vezes sonho, e doravante, sonharei apenas, sentir na minha poesia o que sinto nas suas cordas de guitarra. Mas por enquanto, vou só sentido essa guitarra, e escrevendo o que sinto:


Praia.

 

Suar e correr p’lo peso dos dias;

Lavar no mar um horizonte de lá

que de calor desfeito, vai soltando

as mais leves maresias.

 

Vai-se dizendo, no Almanaque

que as ondas esbatidas de negro

já não passam por cá — não,

o mar tinge-se de azul-cobalto

e cobre-se de água-má — luzia

uma corda de estanho encaracolado,

vibrando com o vento desalmado

que ia correndo sobre o dia.

 

O tamborete, alto e ímpeto no banco de areia

ia-se encontrando tempo-a-tempo com o aluvião;

Uma corda de pérola selvagem, vinda da aldeia,

ia-se dando ao ritmo das ondas contra o pontão.

 

— “Começa agora, nesta praia de silêncio,

       o ínicio da hora, da corda, do momento,

       esticada, agofada na desalma do vento

       dum mar esculpido em composição.”


Não Me Voltes Atrás.

 

Elevando os dedos pulvilhados

ia desenhando a forma dum círculo

que gradualmente se fechava entre

as leves camadas florais do crepúsculo;

 

— “Vês donde venho, vês o que vejo?

       A força dos ventos vem de acolá,

       desse vento-submarino de desejo;

       desse mar brotando dum beijo

       por entre nevoeiro de mel e leite.”

 

Ainda com os dedos em formatura

ia desenhando sua palma nas ondas

que lentamente — subiam, subiam…

numa maré que abraça a costa da pele,

radiando doravante num mar de lendas.

 

Lá, vão-se navios que nunca retornam,

vai-se o nosso corpo infantil e frágil

que sente o calor do colo uma última vez;

Lá, vão-se os tempos, inéditos e devoradores,

uns minutos que retumbam nos estores

em feixos lumiando essa acidez.

 

E esses dedos de ferro, brandando os dias

vão-se esguiando pelas horas, fechando,

criando círculos, pintando as palmas

nas paisagens erodidas de utopias:

Por entre tempos que não voltarão;

Dentre os dias que nunca serão;

Dentro das cordas murmurando essa paz.

 

— “Vês donde venho? Vês o pontão?

       Promete apenas não me voltares atrás.”

 


Embora inacabado, a obra será actualizada na medida em que é feita. Isso pode (ou não) incluir actualizações a composições passadas.


João Maria Azevedo