Poesia Portuguesa

Por motivos de sigilo em natureza extraordinária, não poderei publicar mais trabalhos em Português durante algum tempo, sendo que dedicarei a maior parte do blogue à minha poesia em Inglês.

Os poemas que já escrevi e publiquei irão manter-se, e planeio futuramente voltar a publicar mais.

Um bem haja, meus amores,

João Maria Azevedo

Sintonada (re-escrito)

Publiquei este poema, faz hoje um mês, e entretanto tive de o re-editar várias vezes. Gosto da sua ideia, mas não a consigo fazer funcionar totalmente, falta-me prática.


SINTONADA

SINTONADA

Deitado no nosso doce leito,
Já não sinto nada.
Deito-me no teu peito,
Ouço o teu coração em batida,
Que numa ternurosa bravada
Vai tirando o pouco que ainda sinto.

E quando me dou ao verso,
Já não sinto nada.
Já não tenho lágrimas a chorar
Nem poemas onde debitar
A dor que já nem sinto.

Dá-se então a entrada
De um novo dia, radiante,
Vejo a sua luz com encanto,
E o teu sorriso contagiante.
Mas já não sinto nada.

Vivo num palco de sonetos,
Sou actor de todos os momentos:
Do amor, de amar, de te ter.
E quando cai o pano de seda:
Já não sinto nada.
Nem o medo da morte,
Nem a força da palavra…

Atiro-me então, sem pudor
Ao gume afiado da tua espada,
Que empunhaste por mim no amor,
Do qual eu já não sinto nada.


João Maria Azevedo

T E M P O

Um poema um tanto estranho, não tens pés nem cabeça. Foi escrito à mão num tempo muito reduzido, e não o entendo directamente. Se virem algo nele, digam-me, per favore.


TEMPO

À invocada crueldade do Tempo,
Faço oração de puro desespero:
Que não me façam ode nenhuma.
Que não alimentem esta loucura.

Que não será na mortalha
A escusa de encontrar a falha
Entregue aos orgãos mais letais.

Serão gigantes ecrãs de pedra,
Empoleirados nas sete cabeças da Hidra,
Onde se carvarão os meus textos finais.

Será no halo dessas palavras,
Cravados do mais solene silêncio,
Que me darei à obra inacabada.

Verterá, nas suas grandes mágoas,
O liquido verde que ensopa as estrelas,
E beija os fardos das maiores montanhas.

São nessas palavras que racho a passagem,
E é nelas que me desfaço em miragem,
Na maralha de carinhos que me banha.

Será nessa adorada beleza,
Na candura do texto e sua natureza,
Que o Tempo passará rapidamente.

Inimigo da Arte que o lentifica,
Vítima mortal da sensibilidade mais rica,
Ao Tempo, não ofereço gentileza.


João Maria Azevedo

Poesia de Recado #4


Recado

Hoje tenho vinte e dois anos

E neles se depositam vontades,

Sonhos vazios e tantas esperanças,

“Vinte e dois? É a melhor das idades.”

Pois é, mas não nestas andanças.

 

Já se quebram os tempos uniformes

Das saídas, das amassos, dos homens,

Agora são só sombras disformes:

Memórias pobres que se oprimem.

 

Não tenho pena nenhuma de mirar

A mudança rápida da fluidez humana.

Tenho mais pena se por aqui ficar,

O insano dos tempos distintos,

Aquele que acredita na felicidade,

Haha, que coisa mais arcana…!

Sintoma próprio de pouca idade.

 

Em mim cabem os sonhos de todos,

E em mim todos eles morrerão,

Dou o corpo às flechas de fogo,

Em cordas de gritos e choros,

E pontas de dolorosa paixão.


JOHNNY SALVATORE

ALTA POETTICA

Dedicando este pequeno e simples poema a P. R. Cunha, das palavras, que não as levem o vento.


ALTA POETTICA

Imploro por momentos – o balanço.

Numa oração encharcada d’água

Com muita força, a ver se alcanço

A mansão interior da alta calma.

 

Medito sobre os lábios encarnados

E a plácida leitura introspectiva,

Os meus sobre os teus colocados

Numa paixão só imaginativa.

 

É dura: a versão mental,

O fascício do contratempo,

Da dor d’alma mais brutal.

 

Que me corta de momento,

E me dá, já morto por dentro,

Às entranhas misteriosas do mal.

 

O Atlântico já não é um mar

Mas sim uma massa poética

Que se entrega à cruel temática

De viajar, de viver, de amar.

 

Nesta meditação tão prometida

Vejo só uma travessia esbatida,

D’olhos grandes e azuis como o dia.

 

Talvez haja alguma vazia poética

No Atlântico de palavras e versos

Que nos dê a prometida travessia.


JOHNNY SALVATORE

Sonetos #5 (poesia reciclada)


OUTRORA

Todos os dias escrevo, d’alma repleta,

E lembro-me momentaneamente,

De que outrora já fui poeta

Que outrora já fui contente.

 

Percebo agora que sou das florestas,

Dos rios, das montanhas, sem textos.

Que não choro lágrimas, mas cascatas,

E para chorar não preciso de contexto.

 

Agora que tenho a alma penhorada,

Passo os dias no jardim, a destilar

O facto de não ser mesmo nada.

 

É importante não esquecer:

Homem sem nada a perder

Tem a escrita mais refinada.

 


GILBERTO

És uma efusão na minha tinta,

A ponta metálica da caneta,

És o meu espírito poeta,

Em toda a luz já extinta.

 

Vejo-te em bancos de jardim,

Escrevendo a maior obra,

Uma Ode que se desdobra

Nas asas brancas dum Serafim.

 

Tenho saudades tuas, tantas,

E nunca sequer te conheci,

Agora és só terra e plantas.

 

Guardo as tuas cartas bonitas,

Numa caixa de madeira e cetim

Digna das tuas poesias eruditas.

 


ALVARAZ

Tudo em mim é feito de pó,

E tudo em mim pó se reduz,

Que não me falte muita luz,

Para escrever como estou só.

 

Tenho falta de gostar d’alguém,

De não ser filho do destino,

Estou farto de ter um caminho

Que não se cruza com ninguém.

 

Aqui, já estou tão solitário,

Por vezes já nem me sinto,

Dou-me por homem extinto.

 

Agora, aguardo pela morte,

Que o pó do meu interior

Também a mim me sufoque.


JOHNNY SALVATORE

Não voltes.


Que não sejamos casados,

Mas artistas do romance vazio

Um amor tão platónico como vádio,

Outrora chorado nas casas de fados.

 

Só quero uma varandinha ao Sol

De onde possa ver a nossa Cidade,

Tu desnudo debaixo do meu lençol,

O Porteiro da nossa cumplicidade.

 

Só da sensação eu já perco o jeito

Perante a grandiosa Arte do amor

Num terramoto dos pés ao peito.

 

Que se lixe o Speare e a sua paixão,

Não são nos sonetos da sua canção

Que dão música à nossa suavidade.

 

Que se lixe Dostoy e o seu Idiota,

Só preciso de ti, meu miúdo janota,

És-me suficiente até na saudade.


JOHNNY SALVATORE

V O Z

A cabo de inspiração de muitos poetas por aqui, estou a tentar “desmembrar” os meus poemas na sua estrutura. Não me está a sair nada bem, mas acho que vou lá com treino.


VOZ

Nos dias que passam,

Ninguém lhes dá vida,

Ninguém lhes dá cor,

Ninguém lhes diz nada.

 

Bombardeamentos das sensibilidades

Dão-nos cabo da espinha moralista,

E qualquer assalto às profundas verdades

Já é considerado uma obra surrealista.

 

Somos sangue na vida de esticada,

Sangramos a cultura dos antigos,

Somos mártires da verdade educada,

Somos paladinos dos códigos!

 

Hoje já não brandamos espada,

Atiramos fagulhas ardentes de palavra,

E refugiamo-nos no ninho ocidental

Onde ser tudo e não ser nada é ideal.

 

Nos dias que passam,

Ninguém lhes dá doutrina,

Ninguém lhes dá cornada,

Ninguém lhes diz nada.


JOHNNY SALVATORE

DUAS BATIDAS

Eu tenho andado muito recatado,

Perco-me em qualquer doutrina,

Caço memórias tristes do passado

Presas nas garras d’uma ave de rapina…

 

Num turismo quase-emocional,

Vou batalhando dores de espinha

Ardendo solitário, pois sou eu o tal,

Que em labaredas de sonhos cinza,

Viu todas as cores numa visão letal.

 

Eu tenho andado recatado,

Já cansado de tanto correr,

Cansado de ouvir que irei morrer

A qualquer momento, qualquer lado.

 

Sem entusiasmo, vivo em cristais

Rachados por segundos perdidos,

Duas batidas fatais, quebro-me todo

Em sons sintéticos de metais.

 

E sonho não ter alma poética

Ou amar mais os becos escuros,

Que as praias banhadas de estética.

Sonho sempre por dias tão duros.

 

Assim, dou-me condensado

Em duas batidas perdidas,

Não são mais porque não são,

Podiam ser mais, mas não

As outras foram esquecidas.


JOHNNY  SALVATORE