NIHIL (english poetry)

A bit of an abandoned project, I had hopes of transforming a portuguese poem I had into an English form without translation. Due to structure constrains, I wasn’t able to fully converse it, it was supposed to have eight more stanzas (to match the portuguese version with 20 stanzas).

Turns out the English language is generally more laconic, and you can convey more using less, in turn breaking the general spine of the poem. This is what was left, hopefully someone can look at it and see something worthwhile.

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JOHNNY

Small Compositions (english poetry)

As I’m trying to make a deadline for portuguese poetry, haven’t had much time to write in English. However, I do have these three failed poems I wrote. These are concept sketches more-so than actual poems, later to be turned into actual poems, but I abandoned these out of disinterest for the concepts themselves.

world breaker

prima

clover´


JOHNNY

T E M P O

Um poema um tanto estranho, não tens pés nem cabeça. Foi escrito à mão num tempo muito reduzido, e não o entendo directamente. Se virem algo nele, digam-me, per favore.


TEMPO

À invocada crueldade do Tempo,
Faço oração de puro desespero:
Que não me façam ode nenhuma.
Que não alimentem esta loucura.

Que não será na mortalha
A escusa de encontrar a falha
Entregue aos orgãos mais letais.

Serão gigantes ecrãs de pedra,
Empoleirados nas sete cabeças da Hidra,
Onde se carvarão os meus textos finais.

Será no halo dessas palavras,
Cravados do mais solene silêncio,
Que me darei à obra inacabada.

Verterá, nas suas grandes mágoas,
O liquido verde que ensopa as estrelas,
E beija os fardos das maiores montanhas.

São nessas palavras que racho a passagem,
E é nelas que me desfaço em miragem,
Na maralha de carinhos que me banha.

Será nessa adorada beleza,
Na candura do texto e sua natureza,
Que o Tempo passará rapidamente.

Inimigo da Arte que o lentifica,
Vítima mortal da sensibilidade mais rica,
Ao Tempo, não ofereço gentileza.


João Maria Azevedo

ALTA POETTICA

Dedicando este pequeno e simples poema a P. R. Cunha, das palavras, que não as levem o vento.


ALTA POETTICA

Imploro por momentos – o balanço.

Numa oração encharcada d’água

Com muita força, a ver se alcanço

A mansão interior da alta calma.

 

Medito sobre os lábios encarnados

E a plácida leitura introspectiva,

Os meus sobre os teus colocados

Numa paixão só imaginativa.

 

É dura: a versão mental,

O fascício do contratempo,

Da dor d’alma mais brutal.

 

Que me corta de momento,

E me dá, já morto por dentro,

Às entranhas misteriosas do mal.

 

O Atlântico já não é um mar

Mas sim uma massa poética

Que se entrega à cruel temática

De viajar, de viver, de amar.

 

Nesta meditação tão prometida

Vejo só uma travessia esbatida,

D’olhos grandes e azuis como o dia.

 

Talvez haja alguma vazia poética

No Atlântico de palavras e versos

Que nos dê a prometida travessia.


JOHNNY SALVATORE

Sonetos #5 (poesia reciclada)


OUTRORA

Todos os dias escrevo, d’alma repleta,

E lembro-me momentaneamente,

De que outrora já fui poeta

Que outrora já fui contente.

 

Percebo agora que sou das florestas,

Dos rios, das montanhas, sem textos.

Que não choro lágrimas, mas cascatas,

E para chorar não preciso de contexto.

 

Agora que tenho a alma penhorada,

Passo os dias no jardim, a destilar

O facto de não ser mesmo nada.

 

É importante não esquecer:

Homem sem nada a perder

Tem a escrita mais refinada.

 


GILBERTO

És uma efusão na minha tinta,

A ponta metálica da caneta,

És o meu espírito poeta,

Em toda a luz já extinta.

 

Vejo-te em bancos de jardim,

Escrevendo a maior obra,

Uma Ode que se desdobra

Nas asas brancas dum Serafim.

 

Tenho saudades tuas, tantas,

E nunca sequer te conheci,

Agora és só terra e plantas.

 

Guardo as tuas cartas bonitas,

Numa caixa de madeira e cetim

Digna das tuas poesias eruditas.

 


ALVARAZ

Tudo em mim é feito de pó,

E tudo em mim pó se reduz,

Que não me falte muita luz,

Para escrever como estou só.

 

Tenho falta de gostar d’alguém,

De não ser filho do destino,

Estou farto de ter um caminho

Que não se cruza com ninguém.

 

Aqui, já estou tão solitário,

Por vezes já nem me sinto,

Dou-me por homem extinto.

 

Agora, aguardo pela morte,

Que o pó do meu interior

Também a mim me sufoque.


JOHNNY SALVATORE

Não voltes.


Que não sejamos casados,

Mas artistas do romance vazio

Um amor tão platónico como vádio,

Outrora chorado nas casas de fados.

 

Só quero uma varandinha ao Sol

De onde possa ver a nossa Cidade,

Tu desnudo debaixo do meu lençol,

O Porteiro da nossa cumplicidade.

 

Só da sensação eu já perco o jeito

Perante a grandiosa Arte do amor

Num terramoto dos pés ao peito.

 

Que se lixe o Speare e a sua paixão,

Não são nos sonetos da sua canção

Que dão música à nossa suavidade.

 

Que se lixe Dostoy e o seu Idiota,

Só preciso de ti, meu miúdo janota,

És-me suficiente até na saudade.


JOHNNY SALVATORE

DUAS BATIDAS

Eu tenho andado muito recatado,

Perco-me em qualquer doutrina,

Caço memórias tristes do passado

Presas nas garras d’uma ave de rapina…

 

Num turismo quase-emocional,

Vou batalhando dores de espinha

Ardendo solitário, pois sou eu o tal,

Que em labaredas de sonhos cinza,

Viu todas as cores numa visão letal.

 

Eu tenho andado recatado,

Já cansado de tanto correr,

Cansado de ouvir que irei morrer

A qualquer momento, qualquer lado.

 

Sem entusiasmo, vivo em cristais

Rachados por segundos perdidos,

Duas batidas fatais, quebro-me todo

Em sons sintéticos de metais.

 

E sonho não ter alma poética

Ou amar mais os becos escuros,

Que as praias banhadas de estética.

Sonho sempre por dias tão duros.

 

Assim, dou-me condensado

Em duas batidas perdidas,

Não são mais porque não são,

Podiam ser mais, mas não

As outras foram esquecidas.


JOHNNY  SALVATORE

T U N D R A

Este poema foi um projecto um tanto estranho. O desafio foi descrever como me sinto quando me vejo ao espelho, em quatro quadras (poesia da sorte!), daí o narcisismo poético. Decidi levar a coisa um pouco mais longe e tentar fazer três estrofes dísticas, correu melhor do que esperava. 


TUNDRA

Sou um rio seco, desertado,

Onde água não corre nem brota,

Sou um lago Invernal, congelado,

Uma superfície prateada e morta.

 

Sou o frio que assalta a alma,

A neve que pesa nas árvores, calma,

Letargia que dói em cada movimento,

A visão violenta de corpos no pavimento.

 

Sou a sombra fria e escura,

Brisa que tudo tira na sua secura,

Sou o primeiro filho do gelo cortante,

Lâmina d’água endurecida e radiante.

 

Sou as palavras poéticas na penumbra;

     A brancura gélida que se vislumbra

     De longe sem calor nem senão,

     Sou a última nota silênciosa da canção.


JOHNNY SALVATORE

ANDORINHA

Um poema que encontrei numa agenda, escrevi quando tinha aproximadamente quinze anos de idade. Achei engraçado, vejo alguma beleza na minha escrita adolescente. 


Andorinha,

Leva daqui a chuva,

A tristeza, a saudade,

Lisboa é tão solitária,

O amor, esse, é a maldade.

 

Cidade perdida na luz,

como é próprio da sua idade,

talhada a azul e dourado,

como o céu que lhe termina,

um ouro puro, apaixonado,

a dimensão que nos reduz,

ao pó do nosso fado,

e na nuvem que fica, vejo a sina:

um banco de jardim,

uma viola,

a andorinha que leva a chuva,

e eu, abandonado

filho do amor, e mal-amado,

toco cada corda, varrendo para dentro,

porque, desde que há memória,

não há chuva nem vento,

que termine com tão triste história,

como a de ser só em tamanha beleza,

carregando tão forte tristeza.


JOHNNY SALVATORE