WOTAN-A-MORTE (english poetry)

I haven’t been publishing much lately. Besides being generally busy, my poetic production lately has seemed a bit twisted. As I struggle inside, usually, so does my poetry, and it warps more and more the worse I get.

Regardless, I created this blog for exactly this purpose, to “document” how my work seems to change, evolve, sometimes for the worst. Here is a composition that shows it pretty well:

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HOSMOSIS (english poetry)

My sexuality has always been a dodgy topic among my art creation. At times, I was uninterested in using it as fodder for poems, at others, I couldn’t find poetic fodder to feed a poem worthy of contemplation.

Among a plethora of failed attempts at doing so, I did draw a composition that would eventually become “HOSMOSIS” (quite proud of the title, to be honest here). Being gay was never something I considered integral part of me, until I faced the reality of loving someone in a displayed fashion, as well as the reactions that would prompt. Thankfully, it didn’t only prompt bad reactions, it also prompted this poem, once of the few I can say I genuinely like and feel proud of.

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Also, officially the 50th english poem published on the blog. Thank you so much for allowing me to continue.

With a lot of love,

Johnny

Sonetos #5 (poesia reciclada)


OUTRORA

Todos os dias escrevo, d’alma repleta,

E lembro-me momentaneamente,

De que outrora já fui poeta

Que outrora já fui contente.

 

Percebo agora que sou das florestas,

Dos rios, das montanhas, sem textos.

Que não choro lágrimas, mas cascatas,

E para chorar não preciso de contexto.

 

Agora que tenho a alma penhorada,

Passo os dias no jardim, a destilar

O facto de não ser mesmo nada.

 

É importante não esquecer:

Homem sem nada a perder

Tem a escrita mais refinada.

 


GILBERTO

És uma efusão na minha tinta,

A ponta metálica da caneta,

És o meu espírito poeta,

Em toda a luz já extinta.

 

Vejo-te em bancos de jardim,

Escrevendo a maior obra,

Uma Ode que se desdobra

Nas asas brancas dum Serafim.

 

Tenho saudades tuas, tantas,

E nunca sequer te conheci,

Agora és só terra e plantas.

 

Guardo as tuas cartas bonitas,

Numa caixa de madeira e cetim

Digna das tuas poesias eruditas.

 


ALVARAZ

Tudo em mim é feito de pó,

E tudo em mim pó se reduz,

Que não me falte muita luz,

Para escrever como estou só.

 

Tenho falta de gostar d’alguém,

De não ser filho do destino,

Estou farto de ter um caminho

Que não se cruza com ninguém.

 

Aqui, já estou tão solitário,

Por vezes já nem me sinto,

Dou-me por homem extinto.

 

Agora, aguardo pela morte,

Que o pó do meu interior

Também a mim me sufoque.


JOHNNY SALVATORE

Não voltes.


Que não sejamos casados,

Mas artistas do romance vazio

Um amor tão platónico como vádio,

Outrora chorado nas casas de fados.

 

Só quero uma varandinha ao Sol

De onde possa ver a nossa Cidade,

Tu desnudo debaixo do meu lençol,

O Porteiro da nossa cumplicidade.

 

Só da sensação eu já perco o jeito

Perante a grandiosa Arte do amor

Num terramoto dos pés ao peito.

 

Que se lixe o Speare e a sua paixão,

Não são nos sonetos da sua canção

Que dão música à nossa suavidade.

 

Que se lixe Dostoy e o seu Idiota,

Só preciso de ti, meu miúdo janota,

És-me suficiente até na saudade.


JOHNNY SALVATORE

DUAS BATIDAS

Eu tenho andado muito recatado,

Perco-me em qualquer doutrina,

Caço memórias tristes do passado

Presas nas garras d’uma ave de rapina…

 

Num turismo quase-emocional,

Vou batalhando dores de espinha

Ardendo solitário, pois sou eu o tal,

Que em labaredas de sonhos cinza,

Viu todas as cores numa visão letal.

 

Eu tenho andado recatado,

Já cansado de tanto correr,

Cansado de ouvir que irei morrer

A qualquer momento, qualquer lado.

 

Sem entusiasmo, vivo em cristais

Rachados por segundos perdidos,

Duas batidas fatais, quebro-me todo

Em sons sintéticos de metais.

 

E sonho não ter alma poética

Ou amar mais os becos escuros,

Que as praias banhadas de estética.

Sonho sempre por dias tão duros.

 

Assim, dou-me condensado

Em duas batidas perdidas,

Não são mais porque não são,

Podiam ser mais, mas não

As outras foram esquecidas.


JOHNNY  SALVATORE

T U N D R A

Este poema foi um projecto um tanto estranho. O desafio foi descrever como me sinto quando me vejo ao espelho, em quatro quadras (poesia da sorte!), daí o narcisismo poético. Decidi levar a coisa um pouco mais longe e tentar fazer três estrofes dísticas, correu melhor do que esperava. 


TUNDRA

Sou um rio seco, desertado,

Onde água não corre nem brota,

Sou um lago Invernal, congelado,

Uma superfície prateada e morta.

 

Sou o frio que assalta a alma,

A neve que pesa nas árvores, calma,

Letargia que dói em cada movimento,

A visão violenta de corpos no pavimento.

 

Sou a sombra fria e escura,

Brisa que tudo tira na sua secura,

Sou o primeiro filho do gelo cortante,

Lâmina d’água endurecida e radiante.

 

Sou as palavras poéticas na penumbra;

     A brancura gélida que se vislumbra

     De longe sem calor nem senão,

     Sou a última nota silênciosa da canção.


JOHNNY SALVATORE

C A N T E I R O

Na minha varanda escura,

Ouvi uma bonita canção,

Cantavas baixinho, em oração,

Como quem nada procura…

 

Tão bela era a melodia,

Não lírica nem cantada,

Mas apenas sussurada,

Regada de jovem fantasia!

 

Que doce aroma ela largava,

Em suspiros aéreos de prazer,

Rajadas de ar onde agarrava

A felicidade cândida de viver!

 

Até recebes beijos das flores,

Crisântemos e cravos,

Dão-se como teus escravos,

Em pétalas dobradas de louvores.

 

Eu só largo notas de sangue,

Na tua adorada subtileza,

Radiada de fulgores carnais,

Nas cordas vampirescas da gentileza.

 

Já não me recordo, então,

As variações que te ouvi tocar,

Nos espasmos corporais de amar,

Que demos… em sinergia, sem senão.

 

Seja nos violinos da orquestra,

Ou no nosso olhar que não protesta,

Já só vejo simbiose na canção.

 

Caí então na tentação,

Regando as camélias do canteiro,

De me imaginar, dançando… 

Ao teu bonito canto passageiro.


JOHNNY SALVATORE

Poesia de Recado #3

ESCADARIA

 

Sentados juntos, no chão bruto,

Dávamos beijos, ao calor,

Depositávamos lírios em flor

Nas orelhas um do outro…

 

Mas não te chegava,

Eras demasiado em tão pouco,

Tu davas gritos, já rouco,

Que até Lisboa ecoava…

 

Com olhos húmidos de alegria,

Recitavas a incrível fantasia:

“Quem me dera ser fruto maduro,

  Que se dá ao chão, já escuro,

  E do meu caroço ímpeto na morte,

  Brote a árvore mais altiva e forte!”

 

E eu, cansado da tua ambição,

Faço uma silênciosa oração:

“Quem me dera ser gota,

  Caída na Terra, desolada,

  Outrora lágrima, se vê elevada,

  Às nuvens altas, na condensação!”

 

Mas entre tanta fantasia,

Desistimos, outra vez, aos beijos,

Caídos da ilusão, mas já satisfeitos.

 

Já exaustos da gritaria,

Percebemos que juntos,

Temos tantos sonhos distintos,

Quanto há degraus nesta escadaria.


JOHNNY SALVATORE

Sonetos #3 (poesia reciclada)


LÍRIO

No pináculo de qualquer romance moderno,

Esperei por ti num banco de jardim,

Guardando entre véus um beijo e um jasmim,

Protegidos dos archotes do Inverno.

 

Dentre minutos e horas em que não aparecias,

Morreram de negro o jasmim e o beijo,

Até o livro que te recitei em desejo,

Perdeu a lombada na queda dos dias.

 

É neste jardim de lírios e rosas,

Que rimo as doces prosas,

Da tarde em que te perdi.

 

Hoje relembro na poesia lírica

Aquela tarde tão cruel como satírica,

Do último dia em que não te vi.


CARTAGENA

Aos longos dias de fresca-serra,

Tínhamos o mapa de todos os encantos,

Éramos espectro da rosa dos ventos,

Rosas brancas que não brotam nesta Terra.

 

Na ansiedade de sair, conquistar,

Éramos o chão dos velhos povos,

Pisados pela travada dos novos

Cansados, sem pé nem mar.

 

Afogados numa prisão estagnada,

Que ao Tempo só se declara paralisada,

Buscamos queimadura na luz Solar.

 

Fustigados dos Nortes e Lestes da amargura,

Nunca invocámos visão tão dura,

Como a de ver vida eterna nas hastes do Luar.


JOHNNY SALVATORE