WINDSWEPT (english poetry)

A bit messy and all-over-the-place, this one is another experimental work. I’m trying this “therapeutic poetry” thing, hence why I haven’t published, I’ve been doing it mostly in Portuguese. This one, however, I liked. It’s not great but I hope you gather something from it.

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JOHNNY

T E M P O

Um poema um tanto estranho, não tens pés nem cabeça. Foi escrito à mão num tempo muito reduzido, e não o entendo directamente. Se virem algo nele, digam-me, per favore.


TEMPO

À invocada crueldade do Tempo,
Faço oração de puro desespero:
Que não me façam ode nenhuma.
Que não alimentem esta loucura.

Que não será na mortalha
A escusa de encontrar a falha
Entregue aos orgãos mais letais.

Serão gigantes ecrãs de pedra,
Empoleirados nas sete cabeças da Hidra,
Onde se carvarão os meus textos finais.

Será no halo dessas palavras,
Cravados do mais solene silêncio,
Que me darei à obra inacabada.

Verterá, nas suas grandes mágoas,
O liquido verde que ensopa as estrelas,
E beija os fardos das maiores montanhas.

São nessas palavras que racho a passagem,
E é nelas que me desfaço em miragem,
Na maralha de carinhos que me banha.

Será nessa adorada beleza,
Na candura do texto e sua natureza,
Que o Tempo passará rapidamente.

Inimigo da Arte que o lentifica,
Vítima mortal da sensibilidade mais rica,
Ao Tempo, não ofereço gentileza.


João Maria Azevedo

DUAS BATIDAS

Eu tenho andado muito recatado,

Perco-me em qualquer doutrina,

Caço memórias tristes do passado

Presas nas garras d’uma ave de rapina…

 

Num turismo quase-emocional,

Vou batalhando dores de espinha

Ardendo solitário, pois sou eu o tal,

Que em labaredas de sonhos cinza,

Viu todas as cores numa visão letal.

 

Eu tenho andado recatado,

Já cansado de tanto correr,

Cansado de ouvir que irei morrer

A qualquer momento, qualquer lado.

 

Sem entusiasmo, vivo em cristais

Rachados por segundos perdidos,

Duas batidas fatais, quebro-me todo

Em sons sintéticos de metais.

 

E sonho não ter alma poética

Ou amar mais os becos escuros,

Que as praias banhadas de estética.

Sonho sempre por dias tão duros.

 

Assim, dou-me condensado

Em duas batidas perdidas,

Não são mais porque não são,

Podiam ser mais, mas não

As outras foram esquecidas.


JOHNNY  SALVATORE

Thanatos & Baldur (english poetry)

Thanatos & Baldur was my very weak attempt at a five sonnet composition in English. I’m very comfortable with the format, I mostly do five-sonnet compositions in Portuguese, but English is very different when it comes to sound.

It is inspired by the Greek God of Death, Thanatos, and the Nordic God of Light, Baldur. And in duality, the sonnets were meant to showcase life versus death, light versus darkness, love versus whatever love isn’t.

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Anyways, hope you like it!


JOHNNY

C A N T E I R O

Na minha varanda escura,

Ouvi uma bonita canção,

Cantavas baixinho, em oração,

Como quem nada procura…

 

Tão bela era a melodia,

Não lírica nem cantada,

Mas apenas sussurada,

Regada de jovem fantasia!

 

Que doce aroma ela largava,

Em suspiros aéreos de prazer,

Rajadas de ar onde agarrava

A felicidade cândida de viver!

 

Até recebes beijos das flores,

Crisântemos e cravos,

Dão-se como teus escravos,

Em pétalas dobradas de louvores.

 

Eu só largo notas de sangue,

Na tua adorada subtileza,

Radiada de fulgores carnais,

Nas cordas vampirescas da gentileza.

 

Já não me recordo, então,

As variações que te ouvi tocar,

Nos espasmos corporais de amar,

Que demos… em sinergia, sem senão.

 

Seja nos violinos da orquestra,

Ou no nosso olhar que não protesta,

Já só vejo simbiose na canção.

 

Caí então na tentação,

Regando as camélias do canteiro,

De me imaginar, dançando… 

Ao teu bonito canto passageiro.


JOHNNY SALVATORE

Sonetos (Poesia reciclada)

No último fim-de-semana, seguido de certa secura criativa e com duzentas páginas de poemas fracassados (que nunca deixarei serem lidos), tive a interessante ideia de os reciclar em sonetos! Assim, apresento-vos três dos dez que consegui escrever: 


S A B O R 

Amo-te mergulhado em óleos de alfazema,

E faço-o numa miríade de sabores amargos,

Porque é incerta noite funesta que descargo,

     E do fraco nada, sobra só poema.

 

E com alento, procuro nesse vazio,

Montanhas glaciais que quebram ver,

Pois em visão, ninguém conseguirá ter,

    Os teus lábios ardentes em pavio.

 

Cheiro-os, emanam doces gardénias,

Flores que dobram prontas vénias,

      Às cúrias do teu sorriso.

 

Nos meios das rimas e quente engenho,

Desfaço o papiro onde te desenho,

     Nos figmentos do teu cabelo liso.


A   D E U S

Pai nosso, a quem dei abrigo,

Em casas de pedra e lama ao Sol,

Onde te abraçei debaixo do lençol,

Encontrei-te em doirados campos de trigo.

 

Deus já não me cabe no peito,

Até porque já te foste embora,

E na fúria divina desta demora,

Deleito apoteótico conceito.

 

No escarlate de rosas carnais,

Vejo dourados amores fraternais,

     Que me doem de castigo.

 

E no âmago nefasto da sintonia,

Viscero o corpo em infausta euforia,

Rasgando minutos que passaste comigo.


“R”

Arrasto do mar ao fundo,

Nas baixas marés sentimentais,

Uma cidade vertical de metais,

Que habitarei, vagabundo.

 

Não convidarei a humanidade,

Pois companhia é embuste às flexões,

Ilação que tirei das falhadas paixões,

   Se nada, deram-me vista à verdade!

 

Nascido um remoinho violento,

Filho vingador do Homem atento,

   Vou atirar as setas mais fatais.

 

Mal-amado do momento;

Fadado da crueldade do solene Tempo,

   Não me darei à Terra nunca mais!


JOHNNY SALVATORE