Uma Ode a Paulo Cunha

Paulo, desculpa-me, fora a primeira Ode que alguma vês terei escrito, por vias disso, não será a melhor que já haveis lido, talvez nem a melhor dedicada a ti. Mas gostei muito de a escrever, porque a escrevo para ti. Quem não conhece o meu querido Paulo, ele vive aqui.


ode 1

Ode 2

Ode 3

ode 4


João Maria Azevedo, com ajuda de Eugénio de Andrade, na sua tradução da “Ode a Federico Garcia Lorca”, escrita por Pablo Neruda, e com ajuda de Verlaine, na sua “Canção de Outono”, citada na primeira estrofe.

 

Queda do Dia em Texto (para P.R. CUNHA)

Quem me trata p’lo meu nome saberá que o meu forte não é a prosa. O meu pensamento é poético, versado, quase que se divide sozinho dentro de mim. A meio de ler a obra de Paulo Cunha, alguém que guardo como um fabuloso amigo, deparei-me muitas vezes com memórias de tons existencialistas e decididos. Fui escrevendo, também eu, algumas dessas. Não chego aos pés do meu adorado Cunha, mas confesso gostar muito de escrever pequenos textos de vez em quando, e desta vez, fi-lo por causa dele, achando justo que a ele o atribua. Cunha, meu amigo tropical, que encontres alguma beleza nas minhas humildes palavras:

PORVENTURA


A música é o movimento da mais pura adoração. Sei das primeiras vezes que havia tocado nas teclas envernizadas d’um piano, lembro-me da sua escala de notas me ser natural, já a sabia antes de a ter aprendido, pois fazia sentido. As notas – essas – são sentimentos tangíveis, e quando nos passam, fazem-no à lei da bala, todas elas de raspão. Numas alturas, defino tudo o que senti em leves composições, desde profunda tristeza nas nocturnas, alegria vicejante nas ninfas dançantes, ou amor… nos planetas solitários, orbitando quem tanto os ama, sem nunca lhes tocar. Somos assim, somos canções. Por vezes, num movimento tão lentificado que quase se abate em quebra, somos as notas decididas que profundamente pisam a tecla do piano, produzindo um som por inteiro, um sorriso. Noutras, somos as investidas velozes levemente tocadas, não temos peso, não temos massa, levitamos por um mundo decididamente nosso. E eu, passando a minha pele gasta de mansinho p’las teclas do meu piano, sou o inventor desse mundo teu. Pinto-o de crescendos, escrevo-o com anotamentos, e quando as minhas notas se abatem sobre mim, beijo-as. Elas estendem seus frágeis braços aéreos, e eu encontro-os, e se a minha ternura fosse, d’alguma maneira divina, maior do que é, fundiria-me com esses braços.
Porventura, havia quebrado d’amores por um moço eternamente triste. Tão triste era, que me doía o peito quando o vi a tocar pela primeira vez no meu humilde piano. Uma mística interessante, essa tão humana de nos sucumbir um órgão musculoso que em nada tem a ver com o próprio sentimento. Muitas vezes pensei nessa medida, porque me dói o coração, se apenas bombeia sangue? Mas dói. A dor está lá, toda condensada, e quando se dá o primeiro impulso, radia por todos os figmentos do corpo, através do sangue que a transporta. Eu nunca amei com o coração, mas lá haveria sofrido muitos horrores amorosos, e por tantas vezes, ele próprio haveria tentado saltar de mim fora. Esse moço triste de quem falo sofreria dos mesmos males, carregava suas dores na algibeira, e quando se ajoelhava perante as grandes artes, eram suas dores que o capturavam em suas diversas algibeiras, usando-o como uma luva murcha, daquelas de couro que já não servem a ninguém, e pior, umas cujo par já se haveria perdido entre outras tantas gavetas.
Esse moço triste havia tocado exclusivamente para mim uma composição que anteriormente lhe havia dito que nunca conseguira tocar, Vexations, do meu adorável Satie. Sempre gostei muito de a ouvir, invocava em mim uma imagem mental da qual sempre assumi ser filho – o intocável, condenado ao desamor, condenado à solidão intelectual. Quando a tocou, curiosamente, eu havia sentido algo tão visceral, tão diferente. Senti um encontro, uma fusão modesta de dois seres que viveram sós durante séculos, que se encontram e derretem num só, e amam verdadeiramente, com olhos humedecidos, o só em que se encontram.
Nesse dia, teria acreditado encontrar um amor qualquer dentro de mim, ímpeto mas já murcho, uma flor solitária e sedenta que alguém lhe sussurre o método de como a água flui, de como fluirá até ela, mas que se recusa a morrer enquanto não lhe for sacrificado o sabor dessa água. Hoje, já não sei onde anda essa flor, espero que esteja bem, e oro baixinho nos dias mais quentes que não esteja a sofrer muito com o frio lá debaixo. Por vezes, quando sinto os raios do sol na fronte, acredito que ela também os sente. Noutras vezes, quando toco no meu humilde piano, sinto que ela canta silenciosamente, tanto que não a oiço, mas sinto o movimento dos seus lábios petulosos. Nesse dia, teria acreditado encontrar um amor qualquer dentro de mim. Também nesse dia, acredito o ter perdido no meio de toda essa dor radiada pelo meu sangue. E acredito (embora diga isto muito baixinho) que nesse dia também me devem ter amado a mim.


Para sempre teu adorador,

João Maria.