⌉|⌈ – Für Alina

In 1976 — a year hardened by a big exodus within European confines, Alina, then eighteen years of age, left Tallin, Estonia, for a more promising life in England. Shipping in embrace with her father, she left only her mother, who was left in solitude. Arvo Pärt, by then a long-time friend of the family, syphoned from his years of composing and wove one of the most influential and sumptuous works of musical minimalism — Für Alina, the emblem of his tintinnabuli stylistic approach.

Music, unlike any other basilar-Art, envelops and takes command of a singular sense perception, and opposite to what modernistic music-videos would have you believe, Music itself pylons above little else than sound. Any aesthetic extension is dismissible to the gestalt of a piece. If a composition cannot support itself, a music-video has no worth, and shan’t amend the issue, since it is not constituent to the Art at-hand. There is, however, a very important semblance of aesthetic (by medium of thematic) in Music, laid at the very core of what makes Music, well, Music: giving order to noise and shape to silence — the simplest, most sincere description of the Art. 

Pärt, however, had many trepidations with that unique conception of his craft, and his dark, strikeful soul, compounded with the frigidity and abound lifelessness of the Estonian landscapes, opened those mires of sound that would pend and dip into those chilling waters of silence. He discovered that, perhaps, the soul of a weeping mother, missing and fearing dearly for her child, might connect more with the softness of absent sound than with the cadence and encore of a sole violin.

At roughly seventeen, I first heard this composition being played at a concerto in Lisbon’s suburbs, held in a poorly-lit office room with what felt like six sombering, silent listeners. Maybe such setting allowed me to feel the profound isolation hand-crafted by Arvo, the lingering restlessness of his notes, coalesced with sumps of a silence so-dense, so terribly overwhelming, it becomes a luscious shade that dances around you, and beats at tandem to a shrivelled heart. Alina was gone. Alina left, and with her, she took only her mother’s light, her mother’s life. And how many have done so, since, like Alina has? How many left? Leaving in their wake, the sounds of marching feet, slammed doors, doleful grunts and grievous wounds, followed by a prompt of marginal silence? Silence so long, so withering, it seems to hug you with heat?

Für Alina soothes (and suits) best those who feel abandoned at the margins of a big, haunting desolation, much like Arvo did, much akin to Alina’s mother; but also, the composition itself does not lean only on a negative effect — there is, simultaneously, moments were it lends itself to the release of youth, to the prospect of a more-complete life, a stroll of innocence within the avenues of a reality where such innocence is rewarded, and not condemned nor abused. But all the while, silence is still there, thus, pain is too; no truthfully sincere vision of a positive future may exist in a bubble of suspension, there must be descent, that bubble too must pend and dip into the chilling waters of silence; there is no courage in leaving without fear for what is left behind. Arvo, then, dares not to shy away from his still-silent soul, one that still hurts much, even in the moments when it hurts less. Arvo then upheld the truth of a minimalist — that sadness and serenity cannot be fully translated by adagios and staccatos, that release and catharsis cannot be fully translated by crescendos and da capos, but that Music itself exists only because Silence does, too. This idea, this seed that Silence itself can be a carrier of Art, a medium of emotion far beyond our conventional perception of music, was thought of way before Pärt existed, but he alone mastered the weaving of silence beyond any of his predecessors, acing it with a grace and mastery equal only to the silent landscapes of his Estonian youth. 

I often ponder on this, for Pärt heavily influences my poetry, perhaps more than many poets I admire, and without ever stringing a singular verse; I connect more with his silence, than to the pristine sound of a Shakespearian sonnet; Because I am made of more silence than I am of memories of rosie lips and venetian balconies. Because life is as much a song, as it is a pause. A long, beautiful song, and a longer, sombering pause. 


I will leave you with a fellow Portuguese artist, Joana Gama, playing Für Alina with incredible technique and properness:


JOHNNY

Queda do Dia em Texto (para P.R. CUNHA)

Quem me trata p’lo meu nome saberá que o meu forte não é a prosa. O meu pensamento é poético, versado, quase que se divide sozinho dentro de mim. A meio de ler a obra de Paulo Cunha, alguém que guardo como um fabuloso amigo, deparei-me muitas vezes com memórias de tons existencialistas e decididos. Fui escrevendo, também eu, algumas dessas. Não chego aos pés do meu adorado Cunha, mas confesso gostar muito de escrever pequenos textos de vez em quando, e desta vez, fi-lo por causa dele, achando justo que a ele o atribua. Cunha, meu amigo tropical, que encontres alguma beleza nas minhas humildes palavras:

PORVENTURA


A música é o movimento da mais pura adoração. Sei das primeiras vezes que havia tocado nas teclas envernizadas d’um piano, lembro-me da sua escala de notas me ser natural, já a sabia antes de a ter aprendido, pois fazia sentido. As notas – essas – são sentimentos tangíveis, e quando nos passam, fazem-no à lei da bala, todas elas de raspão. Numas alturas, defino tudo o que senti em leves composições, desde profunda tristeza nas nocturnas, alegria vicejante nas ninfas dançantes, ou amor… nos planetas solitários, orbitando quem tanto os ama, sem nunca lhes tocar. Somos assim, somos canções. Por vezes, num movimento tão lentificado que quase se abate em quebra, somos as notas decididas que profundamente pisam a tecla do piano, produzindo um som por inteiro, um sorriso. Noutras, somos as investidas velozes levemente tocadas, não temos peso, não temos massa, levitamos por um mundo decididamente nosso. E eu, passando a minha pele gasta de mansinho p’las teclas do meu piano, sou o inventor desse mundo teu. Pinto-o de crescendos, escrevo-o com anotamentos, e quando as minhas notas se abatem sobre mim, beijo-as. Elas estendem seus frágeis braços aéreos, e eu encontro-os, e se a minha ternura fosse, d’alguma maneira divina, maior do que é, fundiria-me com esses braços.
Porventura, havia quebrado d’amores por um moço eternamente triste. Tão triste era, que me doía o peito quando o vi a tocar pela primeira vez no meu humilde piano. Uma mística interessante, essa tão humana de nos sucumbir um órgão musculoso que em nada tem a ver com o próprio sentimento. Muitas vezes pensei nessa medida, porque me dói o coração, se apenas bombeia sangue? Mas dói. A dor está lá, toda condensada, e quando se dá o primeiro impulso, radia por todos os figmentos do corpo, através do sangue que a transporta. Eu nunca amei com o coração, mas lá haveria sofrido muitos horrores amorosos, e por tantas vezes, ele próprio haveria tentado saltar de mim fora. Esse moço triste de quem falo sofreria dos mesmos males, carregava suas dores na algibeira, e quando se ajoelhava perante as grandes artes, eram suas dores que o capturavam em suas diversas algibeiras, usando-o como uma luva murcha, daquelas de couro que já não servem a ninguém, e pior, umas cujo par já se haveria perdido entre outras tantas gavetas.
Esse moço triste havia tocado exclusivamente para mim uma composição que anteriormente lhe havia dito que nunca conseguira tocar, Vexations, do meu adorável Satie. Sempre gostei muito de a ouvir, invocava em mim uma imagem mental da qual sempre assumi ser filho – o intocável, condenado ao desamor, condenado à solidão intelectual. Quando a tocou, curiosamente, eu havia sentido algo tão visceral, tão diferente. Senti um encontro, uma fusão modesta de dois seres que viveram sós durante séculos, que se encontram e derretem num só, e amam verdadeiramente, com olhos humedecidos, o só em que se encontram.
Nesse dia, teria acreditado encontrar um amor qualquer dentro de mim, ímpeto mas já murcho, uma flor solitária e sedenta que alguém lhe sussurre o método de como a água flui, de como fluirá até ela, mas que se recusa a morrer enquanto não lhe for sacrificado o sabor dessa água. Hoje, já não sei onde anda essa flor, espero que esteja bem, e oro baixinho nos dias mais quentes que não esteja a sofrer muito com o frio lá debaixo. Por vezes, quando sinto os raios do sol na fronte, acredito que ela também os sente. Noutras vezes, quando toco no meu humilde piano, sinto que ela canta silenciosamente, tanto que não a oiço, mas sinto o movimento dos seus lábios petulosos. Nesse dia, teria acreditado encontrar um amor qualquer dentro de mim. Também nesse dia, acredito o ter perdido no meio de toda essa dor radiada pelo meu sangue. E acredito (embora diga isto muito baixinho) que nesse dia também me devem ter amado a mim.


Para sempre teu adorador,

João Maria.